Talvez dona Maria Auxiliadora não soubesse, lá na década de 70, o quão preciso era o nome que havia escolhido para filha. Entre tantas opções – há quem goste de Paula, de Maria, de Rosana e, por que não, de Amanda? –, Maria optou por Amada. Um nome de verbo conjugado que expressa com todas as letras a que veio quem o recebe: sou amada. Amada menina cresceu em Salvador, onde aprendeu a gostar da terra e do calor, e veio para São Paulo a tempo de perceber um de seus grandes dons. Amada fala, narra, percebe, guarda e sorri. Dá atenção e ouvido às centenas de pessoas que passam pelo “Escondidinho da Amada”, um espaço de música, de conversa, de cor e – eis o segundo dom de Amada – de comida. Seu prato mais famoso, que dá nome ao “restaurante”, é o escondidinho de carne-seca vendido em Pinheiros, em São Paulo.
A história que Amada gosta de contar começa no seu encontro com o atual marido, Fernando, em Aracaju (SE). Os dois passavam férias na cidade e se conheceram num bar da cidade. “Ela passou por mim e eu pensei: nossa, que mulher bonita! Tive um ímpeto e fui atrás dela. Logo me apresentei: oi, sou o Fernando!”, conta, rindo. Na época, a baiana era noiva de Salomão, um “negão” muito ciumento. Algum tempo depois de ser demitida do hotel onde trabalhava como recepcionista, ela decidiu vir para a capital paulista. Com a mala “cheia de biquínis”, ela chegou na Lapa, zona oeste de São Paulo, onde morou numa construção feita no fundo de um quintal. “Fiquei oito meses procurando um lugar. É como procurar emprego. Queria algo barato, legal e com localização boa”, conta. A antiga morada não lembra nem de longe a que o casal mora hoje. Localizada em Pinheiros, também zona oeste, é uma casa térrea e arejada. É ali que ela prepara semanalmente os pratos que leva aos sábados para seu “Escondidinho”. Tudo é congelado. No momento de servir, ela coloca a comida no forno e voilà – parece que foi feito na hora. A cada sábado, são vendidas 200 porções de escondidinho de carne-seca e 25 porções de arrumadinho, além do “bacalhau da Amada”, do sanduíche de carne-louca e da batata-assada recheada com creme de queijo e de bacon, entre outros.
O escondidinho – A história de seu prato mais famoso é mais uma que conta com a participação de Fernando. Um pouco antes de abrir seu primeiro “restaurante”, Amada fez uma travessa de escondidinho para o marido. “Dava pra 6 pessoas. Comi metade num dia e metade no outro. Estava tão bom que falei: vamos vender esse prato”, conta. Amada começou, então, a montar uma cozinha adaptada. Pediu panelas e fornos caseiros emprestados a vizinhas. Por um bom tempo, usou somente um fogão de quatro bocas. “Chorei muito nessa cozinha, sem ajudante…o Fernando me dizia: é a profissão que está entrando”, diz Amada. Fernando, dono de uma empresa de solda de vidros, logo explica: “é uma coisa de mecânica. Quando o cara suja a mão de graxa, eu digo: a profissão está entrando no sangue!”.
A profissão realmente entrou no sangue de Amada. Uma das coisas que mais chama atenção no “Escondidinho” é um caderno em que as pessoas deixam elogios e agradecimentos à comida e à simpatia da anfitriã. Há mensagens de paulistanos, cariocas, baianos, pernambucanos, mineiros, curitibanos, alemães, espanhóis, americanos e ingleses, entre outros. Invariavelmente, alguém pede a receita do prato – Amada não passa de jeito nenhum. Mas ela sempre revela um dos segredos da sua comida: “o principal ingrediente é o amor!”.